SBrT Entrevista

Prof. Edmar Gurjão
Prof. Edmar Gurjão

É com alegria que a Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT) anuncia uma série de entrevistas, conduzidas pelo Prof. Edmar Gurjão, feitas com seus sócios eméritos e seniores, isto é, sócios de seu quadro que possuíram destacada atuação na divulgação e avanço na área de telecomunicações e da própria SBrT. Além de ser uma forma de agradecimento ao trabalho efetuado por essas pessoas, objetivamos registrar histórias, algumas de suas opiniões e conselhos.

Dando prosseguimento às entrevistas, temos o prazer de entrevistar o Prof. Raimundo Sampaio Neto, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Prof. Raimundo Sampaio, como é mais conhecido, tem atuação destacada em diversas áreas, é membro Emérito da SBrT, participou da Diretoria da sociedade, tem participado continuamente dos eventos da Sociedade e contribuído sobremaneira para a formação de engenheiros, nas agências de fomento à pesquisa, nos eventos e para a nossa sociedade científica.

Antes de passarmos à entrevista, gostaríamos de agradecer ao Prof. Raimundo Sampaio pela presteza em responder as nossas perguntas.

Entrevista com Prof. Raimundo Sampaio Neto

Bio: Recebeu o diploma e o título de Mestre, ambos em Engenharia Elétrica, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1975 e1978, respectivamente, e o grau de Ph.D pela University of Southern California (USC) em 1983. Foi Professor Assistente na PUC-Rio de 1978 a 1979 e bolsista de Doutorado na USC de 1979 a 1983. De novembro de 1983 a junho de 1984 esteve como Post-Doctoral fellow no Communication Sciences Institute of the Department of Electrical Engineering na USC e foi membro do corpo técnico da Axiomatic Corporation, Los Angeles. Está na PUC-Rio desde julho de 1984 onde é atualmente Pesquisador do CETUC e Professor Associado do Departamento de Engenharia Elétrica. Durante o ano de 1991 foi Professor Visitante no Department of Electrical Engineering na USC. Prof. Sampaio tem participado em uma série de projetos e consultorias envolvendo empresas privadas e agências governamentais. Foi co-organizador da Sessão em Resultados Recentes do Workshop de Teoria da Informação do IEEE, 1992, Salvador, serviu também como Technical Program co-Chairman da IEEE Global Telecommunications Conference, Globecom’99, realizada no Rio de Janeiro em dezembro de 1999 e como membro da comissão técnica de vários SBT e ITS. Participou, por três mandatos, da diretoria da Sociedade Brasileira de Telecomunicações, como Primeiro Secretário (2000-01) e Vice-Presidente de Desenvolvimento e Difusão (2002-03 e 2010-11), tendo sido membro de seu Conselho Consultivo no período de 2004 a 2009. Foi Editor de Área, Transmission Systems, da Revista da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (atual Journal of Communication and Information Systems - JCIS). No período de novembro 2015 a junho 2018 atuou como Membro Titular do Comitê de Assessoramento de Engenharia Elétrica e Biomédica (CA-EE) do CNPq. É consultor da CAPES e CNPq. Suas áreas de interesse incluem teoria de comunicações, transmissão digital e processamento de sinais para comunicações. Áreas nas quais publicou mais de 200 artigos em periódicos e conferências com revisores.



1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

Sendo filho de militar, mudei de cidades várias vezes nos meus primeiros anos de vida. No meu curso primário estudei os dois primeiros anos em Campo Grande, MT, e os dois últimos em escola pública no Rio de Janeiro. Do primeiro ano do curso ginasial ao segundo ano do nível secundário, que por minha escolha foi feito na opção Científico, frequentei o Colégio de Aplicação da antiga UEG (Universidade do Estado da Guanabara) atual UERJ. Foi no período de final de Ginásio e curso Científico que descobri minha atração pela matemática e pendor pela Engenharia. Meu terceiro ano de Científico foi feito no Curso Bahiense, um curso preparatório para vestibular, bastante prestigiado à época. O Curso Bahiense, recrutava alunos nos bons colégios para formar turmas especiais, sem pagamento de anuidades, e alcançar os primeiros lugares nos vestibulares de instituições de ensino de prestígio. Fui recrutado para a chamada turma IME 1, considerada a mais difícil. A formação que recebi ao longo do ano de 1970 foi excelente nas diversas áreas da matemática, Cálculo, Álgebra, Trigonometria, Geometria, e que incluíam desenho Geométrico, Geometria Analítica e até Perspectiva, além de Física, Química e ..,,ufa!. O ensino era excelente, mas a rotina de ensino era dura, bem dura: aulas de 7:00 às 18:00 hs de segunda a sábado e provas aos domingos de 7:00 às 11:00 hs. Um pequeno grupo de alunos, dentre os quais eu me incluía, costumava nas noites de sábado desanuviar em noitadas na interessante vida noturna do Rio de Janeiro. Por vezes íamos quase que diretamente destas noitadas para a nossa prova dominical. Ao final do ano, finda a bateria de provas vestibulares que nos obrigamos a fazer, exaustos mas felizes, o Professor Norbertino Bahiense , dono do Curso, convidou um grupo de alunos (os mais chegados, de acordo com ele) para uma comemoração na sua casa no Leblon “Já avisei a Patroa e está tudo certo”, e lá fomos nós. O encontro estava ótimo e o Prof. Bahiense decidiu abrir a adega e liberar geral (éramos todos maiores de idade). Foi um desatino. Aquele grupo de alunos, sob euforia e alívio com o término de um ano bastante estressante, “encheu a cara” e desabou. Fui acordado horas depois por um sorridente Bahiense. Estava debaixo da mesa da sala de jantar... Sobrevivemos.

Dentre as instituições de ensino superior para as quais prestei exame vestibular e após recomendações de vários ex-alunos escolhi a engenharia da PUC-Rio. Após o ciclo básico nos dois primeiros anos, decidi pela especialização em Engenharia Elétrica. Nesta fase, lembro com clareza de dois dos cursos lecionados por professores atuantes no CETUC (Centro de Estudos em Telecomunicações da Universidade Católica): Modelos Probabilísticos em Engenharia Elétrica, ministrado pelo Professor José Paulo (José Paulo de Almeida e Albuquerque) e Princípios de Comunicações, ministrado com elegância e simplicidade pelo Professor Leite (José Leite Pereira Filho) com base no livro clássico do Lathi. A beleza da matemática e análises envolvidas nestes dois cursos foram em grande parte responsáveis pela minha guinada na direção da área de concentração em Telecomunicações dentro da Engenharia Elétrica da PUC.

Ao chegar aos últimos períodos do curso de graduação eu já havia estagiado na antiga CETEL, depois extinta TELERJ, e estava estagiando na Embratel, já me vendo como engenheiro desta empresa, quando recebi do Prof. José Paulo uma oferta de bolsa para o curso de mestrado oferecido pelo CETUC. Aceitei e considero que aí começou realmente a minha carreira de pesquisador. Após o término do mestrado e um ano como Professor Assistente, apliquei e fui aceito para um programa de doutorado na University of Southern California (USC), altamente recomendada pelo seu ex-aluno Professor José Roberto Boisson de Marca, devido ao seu grupo de professores atuantes na área de telecomunicações, conhecido internacionalmente por sua excelência. Iniciei o curso em setembro de 1979 e defendi minha tese no mesmo mês em 1983, sob a orientação do Prof, Robert Scholtz. Após a defesa permaneci na California por mais 10 meses como Post-Doctoral Fellow na USC e Staff Engineer em uma empresa que prestava consultoria para a Marinha, para a NASA e outras agências americanas. Foi um período muito interessante e rico em aprendizado. Retornei para a PUC em julho de 1984 com uma boa bagagem e conhecimento na minha área de atuação. Em 1991 aceitei convite para passar um ano de licença sabática da PUC como professor visitante na USC onde tive a satisfação de novamente trabalhar com o Prof. Scholtz e auxiliá-lo na orientação de alunos de doutorado.


2. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

Antes de responder, peço antecipadamente desculpas pela possível imprecisão de datas. Minha memória não é muito boa para datas e nomes.

Eu sou do tempo onde um telefone fixo era considerado um bem tão valioso que tinha que ser declarado no imposto de renda. Conseguir uma linha em um tempo menor que um ano demandava “pistolão”. Em 1984, ainda morando nos Estados Unidos um professor grego meu amigo afirmou que em futuro não muito distante nós teríamos telefones pessoais que poderíamos levar no bolso da camisa. Me soou como ficção científica. Na década de 90 no Brasil surgiram os primeiros aparelhos de telefonia móvel. Eram analógicos e instalados em veículos. Por volta de 1994 surgiram os celulares portáteis, ainda analógicos e ainda longe de poderem ser levados no bolso da camisa. Eram grandes e pesados. A privatização em 1998 resultou em grande avanço e modernização das telecomunicações com a digitalização das comunicações telefônicas e posteriormente com a introdução de telefones celulares digitais com dimensões reduzidas. A crescente popularização destes últimos criou a necessidade também crescente de aumento da capacidade e eficiência dos sistemas de telefonia celular, com o consequente surgimento de diferentes e cada vez mais sofisticados métodos de acesso às redes de comunicações e tecnologias de transmissão digital, padronizadas nas chamadas gerações de telefonia celular. Na verdade, a área de telecomunicações que já englobava teorias calcadas basicamente em matemática como códigos corretores de erro e a Teoria da Informação, tem hoje forte presença do processamento digital de sinais e até das camadas superiores à camada física na classificação MAC. A área tornou-se tão vasta que a pesquisa a ela relacionada está forçosamente segmentada. Por outro lado, esta segmentação abre espaço e oportunidade para a absorção de pesquisadores com diferentes formações e pendores.


3. O que lhe motiva a participar de sociedade científicas, e em especial da SBrT?

Quando retornei dos Estados Unidos em julho de 1984, cheguei ao Brasil ansioso para conhecer e me inserir na comunidade acadêmica atuante em telecomunicações. Felizmente no ano anterior, em setembro de 1983, um grupo de professores e pesquisadores visionários havia fundado a Sociedade Brasileira de Comunicações. Sociedade esta que ajudou a mim e a grande parte dos pesquisadores e jovens alunos da área a tomar conhecimento, e possivelmente interagir e colaborar com as pesquisas em andamento nas diversas instituições de ensino e pesquisa. Ademais, a SBrT, através de seus simpósios anuais veio a se tornar um fórum importantíssimo para a propagação das pesquisas sendo realizadas nas nossas instituições na área de telecomunicações e em meio fundamental para que a nossa comunidade tenha presença e voz junto à comunidade científica brasileira. Reconhecendo, pelas razões citadas, a grande importância de uma sociedade científica como a SBrT, sinto-me honrado por ter sido escolhido para fazer parte de sua diretoria por três mandatos (2000-2001, 2002-2003 e 2010-20011) e ter sido eleito para seu Conselho Deliberativo por 3 mandatos, totalizando um período de 6 anos de atuação.


4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

O primeiro dos simpósios que participei, imediatamente após meu retorno dos Estados Unido, foi o SBT 1984 (só depois tornou-se SBrT), segundo da série, realizado em Campinas. Acredito ter participado de quase todos os outros, ou de sua grande maioria, seja como coautor de artigos com colegas ou alunos, como membro do comitê técnico e/ou presidente de Sessão. Vários simpósios merecem destaque. Vou me deter em alguns. O SBT 1995, realizado em Águas de Lindóia-Campinas, se não me engano foi o primeiro onde a inscrição incluía a hospedagem no hotel sede do simpósio. Me lembro que, além das atividades técnicas do simpósio, tivemos nos agradáveis ambientes do hotel, reuniões e papos divertidos e muita música noite adentro, embalados pelo som dos violões dos professores Marcelo Sampaio e João Célio. O SBT 1996 ocorrido no mês de julho em Curitiba, pois foi, apesar do frio congelante, onde conheci minha futura esposa, ainda aluna de graduação. Naquela ocasião dançamos ao som do animado banquete e posteriormente, iniciamos a nossa relação em1997 durante o seu curso de mestrado no CETUC. Considero importante e destaco a colaboração da SBrT, sob a presidência do Prof. José Mauro Fortes da PUC-Rio, e a participação decisiva de seus sócios na realização com grande sucesso da IEEE Globecom, à época a maior e mais prestigiada conferência internacional na área de telecomunicações, ocorrida no Rio de Janeiro em dezembro de 1999. A Globecom 1999 teve como Presidente o Professor José Roberto Boisson de Marca da PUC-Rio e eu atuei como coordenador técnico, juntamente com o Professor Edmundo de Sousa e Silva da UFRJ. Lembro com prazer os simpósios realizados na região nordeste, que acrescentaram à parte técnica a conhecida hospitalidade do povo nordestino. Menciono também, como satisfação pessoal, o SBrT 2003 no Rio de Janeiro, pela homenagem a mim prestada na comemoração dos 20 anos da SBrT, o ITS 2006, em Fortaleza, e o SBrT 2011, em Curitiba, onde foram anunciadas, respectivamente, as minhas promoções a Sócio Sênior e a Sócio Emérito da Sociedade.


5. Quais suas referências profissionais?

Tenho algumas referências profissionais de pessoas com os quais interagi na minha vida acadêmica. Destaco aqui duas delas. A primeira é o Professor José Paulo de Almeida e Albuquerque, egresso do MIT e meu professor e orientador durante o curso de mestrado no CETUC/PUC-Rio. Seu estilo e maneira de conduzir suas aulas além do trato com os alunos e seu enorme conhecimento técnico me impressionaram sobremaneira e tiveram impacto na forma das minhas aulas e orientação dos meus alunos. Prof. José Paulo foi o criador e incentivador do grupo de sistemas de comunicações do CETUC. Foi também persistente em encorajar os professores deste grupo a fazer curso de doutorado no exterior - o doutorado em engenharia elétrica, telecomunicações, ainda não tinha sido criado na PUC e, se existia, era incipiente em outras instituições. Vários de nós, professores iniciantes do grupo, seguimos este caminho, restando ao Prof. José Paulo a grande carga de ministrar vários cursos e orientar muitos alunos de pós em substituição aos ausentes. Ou seja, “carregou o piano” para que nós pudéssemos perseguir nossas ambições acadêmicas. Minha segunda referência é o Prof. Robert Scholtz meu professor e orientador no programa de doutorado na USC. Interessante e afortunadamente, eu percebi nele muitas das qualidades do Prof. José Paulo, no que tange ao cuidado na preparação e apresentação de suas aulas, no trato com os alunos e no enorme conhecimento técnico. Além disso pude contar em várias ocasiões com o seu apoio em aspectos da minha vida pessoal. Tenho tentado, não sei com que grau de sucesso, seguir estes dois exemplos na minha vida acadêmica.


6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

Eu tenho sim um hobby que infelizmente está suspenso. Sou fundador e participante de uma banda mista de percussão e outros instrumentos que sempre tocou em público e que por conta da pandemia não se reúne e nem se apresenta. Uma breve história: ainda adolescente eu passava férias com meus primos e primas de uma família de 10 irmãos que moravam em Diamantina, MG. Na época do carnaval, seja por falta de dinheiro ou por considerar os bailes do tradicional clube local “careta”, começamos uma pequena bateria, basicamente percussão, que tocava e cantava, “no gogó”, nas ruas ou em frente a bares. O interessante é que esse pequeno grupo cresceu a ponto de o clube parar de promover os tradicionais bailes devido à baixa frequência. O povo estava nas ruas. Em 1972 oficializamos o nome da nossa banda: Bartucada, por ser uma batucada que começou em um bar e tinha uma proposta inovadora, tocávamos e cantávamos praticamente todos os ritmos, mas que invariavelmente entravam no acompanhamento de uma bateria de percussão. Fomos, acredito eu, os primeiros a adotar este estilo, que hoje encontra eco em alguns grupos, como por exemplo, o Monobloco do Rio de Janeiro. Ao som da Bartucada tocando em praça pública para multidões o carnaval de rua de Diamantina foi considerado um dos melhores do Brasil. Hoje, quase cinquenta anos depois, estamos ativos, somos um grupo (quase uma confraria) de quase 150 pessoas de várias idades e profissões que se se reúnem e se revezam em apresentações em Minas e outros estados, É um prazeroso hobby para a grande maioria de nós, uma vez que à exceção de cantores e profissionais que atuam na ala dos metais, teclados e cordas nenhum dos demais participantes é remunerado. Todo o dinheiro recebido nos shows é revertido na própria Bartucada, promovendo reuniões musicais de congraçamento, aquisição e manutenção de instrumentos e, recentemente, na adequação, manutenção e aprimoramento do galpão alugado para abrigar nossa sede e quadra de ensaios e eventos em Belo Horizonte.


Este meu hobby dissipa tensões e promove agradáveis reuniões com parentes e amigos (e boas cachaças) das mais diversas tendências. Está fazendo muita falta nesse período de pandemia.

Não me ocorre agora algum livro específico que consideraria interessante como fonte de informação, mas existem alguns que foram leituras prazerosas ao longo da minha vida. Fui um leitor voraz de livros de garoto até minha fase adulta. Enquanto garoto e adolescente devorei as obras de Monteiro Lobato, as histórias de Tarzan de Edgar Rice Burroughs, algumas obras de Menotti Del Pichia, como A filha do Inca, coleções completas, e muitos outros da extensa biblioteca do meu pai. Literalmente, eu não conseguia dormir sem ler. Ainda no ginásio/científico, Machado de Assis, José de Alencar e outros clássicos da literatura brasileira, e pouco mais tarde os deliciosos livros de Jorge Amado, Capitães de Areia, Gabriela Cravo e Canela, Mar Morto, Tenda dos Milagres, além de vários outros autores. Infelizmente, em troca de outras fontes, não tenho mantido o hábito da leitura regular e constante de livros, porém posso citar dois que me marcaram: Grande Sertão-Veredas de Guimarães Rosa, que me fascinou pela narrativa intensa e interessantíssima, que incluía a invenção de palavras e expressões, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que li pela primeira vez há décadas. Leitura absorvente e fascinante, mas um pouco difícil de acompanhar, devido à existência de várias gerações e profusão de personagens. Recentemente, ganhei de um aluno colombiano, meu orientado de doutorado, uma versão em espanhol. Apesar de o aluno fornecer um anexo com as relações entre gerações e árvore genealógica que muito ajuda, a minha dificuldade com o espanhol, apesar do esforço, tem emperrado a leitura. Por vezes eu até achava que meu espanhol era razoável, ao menos era essa a minha sensação quando nos reuníamos em um bar, eu e grupos de mais de doze alunos e alunas hispânicos, para comemorar a defesa de dissertação ou tese de um deles. Mas, claro, eram os enganosos efeitos das várias rodadas e brindes da comemoração.

7. O senhor tem orientado pessoas com formação em outros países, há alguma diferença que possa destacar da formação dessas pessoas com a dos seus orientados brasileiros?

Tenho tido alunos e alunas de várias partes da América Latina, mais de um de cada país, Perú, Colômbia, Equador Honduras e mais recentemente Cuba. Os meus orientados brasileiros foram, e são, em sua maioria oriundos de boas instituições de ensino, muitos da própria PUC-Rio. Em termos de formação posso perceber ocasionalmente algumas diferenças, não somente devidas à formação técnica em si, mas a diferenças de ênfases que foram dadas nas respectivas formações a certas matérias que consideramos primordiais para nossos cursos. Meus alunos hispânicos têm, entretanto, conseguido superar eventuais limitações, São em geral compenetrados, dedicados, ansiosos por aprender e aperfeiçoar sua formação. Além destas características, eles são extremamente respeitosos com os professores, alegres, adoram reuniões e festas (destaque para os cubanos e cubanas) e têm me proporcionado um interessante intercâmbio de culturas. Tem sido um prazer trabalhar com eles, mas também uma fonte extra de preocupação com os prazos para finalização de seus programas e consequente interrupção de suas bolsas de estudo. Manter-se sem elas em um país que não é o seu, longe das famílias e com o alto custo de vida do Rio de Janeiro, em particular os altos custos de moradias no entorno da PUC-Rio, é um grande desafio. Costumo brincar que eu acabo me sentindo um pai (por vezes bastante enérgico) de todos. Com as preocupações decorrentes.


8. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

Certamente é importante procurar trabalhar com um pesquisador experiente em um grupo de pesquisa consolidado em uma instituição de prestígio. No entanto, um outro fator importante, com um peso considerável, tem a ver com o entusiasmo do pesquisador principal, que seja este realmente um líder, e a sinergia desse grupo, mesmo que estejam ainda buscando uma consolidação e maior destaque em suas áreas de pesquisa.

Me permito, entretanto, acrescentar algumas “posições filosóficas” que procurei passar para meus filhos mais velhos e procuro agora passar para minhas duas filhas adolescentes: Invista e dedique-se ao que você escolheu ou que deseja exercer como atividade na sua vida, mas lembre-se que caso frustrado nas suas expectativas, é sempre melhor procurar novos caminhos e funções do que permanecer infeliz com sua escolha. Na sua atividade profissional, respeite aqueles que te cercam e pratique a empatia, principalmente em cargos de chefia e que incluem certamente seus alunos se sua atividade for acadêmica. Seja um profissional responsável naquilo que escolheu ou que esteja exercendo, mas é bom lembrar que uma existência plena não pode prescindir de uma boa dose de humor, divertimento, alegrias recorrentes, papos despretensiosos, um tanto de irreverência e até alguma irresponsabilidade, se inofensiva.


9. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

Lembro que além de constituir-se em um fórum importantíssimo para a propagação das pesquisas sendo realizadas nas nossas instituições nas áreas de telecomunicações e, mais recentemente, de processamento de sinais, a existência da SBrT é fundamental para que a nossa comunidade tenha presença e voz junto à comunidade científica brasileira. Como mensagem, peço então que os leitores contribuam, ou continuem a contribuir, com a Sociedade, incentivando a associação dos jovens alunos, assim como a publicação de artigos nos simpósios e na revista da SBrT.

Ressalto também a ótima iniciativa do Professor Edmar Gurjão de criar esta série de entrevistas envolvendo sócios da SBrT. Sugiro portanto aos leitores que acompanhem esta série, que, como demonstrado pelas duas entrevistas que precederam a esta, dos colegas professores Hélio Waldman e Hélio Magalhães de Oliveira, contém colocações, informações e narrativas muito interessantes e que, tenho a certeza, continuarão com entrevistas futuras de personagens de grande importância e destaque na história de nossa sociedade.


Confira as entrevistas anteriores

  • Bio: Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1980), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1983) e doutorado na École Nationale Supérieure des Télécommunications (1992). Professor adjunto de Estatística na Universidade Federal de Pernambuco desde 2015. Paraninfo de dezesseis turmas de formandos em Engenharia Elétrica-Eletrônica/Engenharia da Computação e professor homenageado eleito por quarenta e nove turmas de formandos da UFPE, Recife. Ex-coordenador dos cursos de Estatística da área II - 9 turmas, cerca de 500 alunos de diversas engenharias (2016-2018), ex-coordenador da pós-graduação em Engenharia Elétrica (1992-1996). Sócio Sênior da Soc. Bras. de Telecomunicações SBrT 2019. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica e modelos/sistemas probabilísticos, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: análise e processamento de sinais, engenharia de áudio, análise de multirresolução, algoritmos rápidos, transformadas de wavelets, corpos finitos, teoria da informação aplicada, transformadas de corpo finito, análise de sinais genômicos, modulação e análise de sinais, codificação de canal, modulação codificada, retículados, Autor do livro "Análise de Sinais para Engenheiros: Uma Abordagem via Wavelets", Brasport Livros e Multimídia Ltda, 1ª edição - 2007, "Análise de Fourier e Wavelets", Editora universitária UFPE. E-book 2012: "Engenharia de Telecomunicações", "Collectio Poemata in Latinum", 2011-2017 (vol I 51p., vol II 57p. vol. III 51p., vol IV, 59p., vol. V, 65p. vol VI, 66p., vol. VII, 84p., vol. VIII, 70p., vol. IX, 59p.). Homenageado da Sociedade Brasileira de Telecomunicações em 2018, nos 35 anos da criação. Orientou 25 trabalhos de Iniciação Científica, 13 dissertações de Mestrado (+4 co-orientações) e 3 teses de doutorado.



    1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

    Minha formação foi iniciada antes dos cursos formais. Sou de uma família de professores (pai e mãe), com um aguçado interesse científico no lar. Li os 32 volumes da coleção de Júlio Verne, Life, o mundo e nós, enciclopedia Labor, tesouro da juventude, Victor Hugo e tanta coisa interessante. Meu pai graduou-se em Química industrial aos 21 anos, na Universidade de Pernambuco, no ano 1952. Minha tia, farmacêutica na escola de medicina em 1947. Época em que poucos tinham acesso a cursos superiores. Já descobri, ainda criança, que não queria biologia/medicina, artes, direito: sempre me sai melhor em exatas. Minha opção por engenharia elétrica se deu por dois motivos: o exemplo do meu pai que abandonou a formação superior em Química pelo fascínio nele imprimido pela "nova" eletrônica. Adquiriu o cinema Rio Branco (hoje o mais antigo cinema em funcionamento na América Latina) e montou uma oficina de Eletrônica. Tornou-se professor de Física e Matemática superior na Faculdade de Formação de Professores em Arcoverde. Em segundo, tratava-se do curso de maior média, o mais reputado por quem almeja uma formação científica sólida (desejo por excelência). Na oficina, representante autorizado das marcas mais relevantes (Philco, Motorola, Philips, Nordsom, ABC a voz de ouro etc.), muito jovem, trabalhei auxiliando meu pai em reparo de equipamentos, uma motivação para a minha escolha. Minha formação de graduação foi na Universidade Federal de Pernambuco, em Engenharia Elétrica em 1980, aos 21 anos (inexistia um curso de engenharia eletrônica, em vias de criação na época). Eu sempre almejei trabalhar com ciências. O que me conduziu para a área de Telecomunicações? Na época, parcos doutores e poucos pesquisadores. Na UFPE dos anos 70, a melhor opção de orientação foi Dr Valdemar Rocha Jr (ligado á pós-graduação, orientando IC). Minha escolha não foi por achar a área a mais interessante: eu preferia máquinas elétricas. Tive opção de após graduado, conseguir contrato com a Chesf e com a Philips (o diretor conhecia minha família: cheguei a ter entrevista na qual me foi oferecida vaga, e possibilidade de ir à Eindhoven). Perguntei aos meus pais se eles me "bancariam" para ingressar no mestrado na UFPE, sem bolsa. Eles não hesitaram e me apoiaram de olhos fechados. Ingressando no magistério superior em 1983 (aos 24 anos), passei algum tempo programando doutoramento. Casei-me. Minha esposa desejava fazer doutorado no exterior e me fez a proposta: o primeiro que conseguir aceitação e bolsa, o outro segue. Assim foi a minha "escolha" para a França. Meus contatos eram UK. Mas ela conseguiu rápido uma bolsa COFECUB em Paris, centro em que qualquer área de conhecimento possui boas opções. Fui conduzido à ENST, uma grand école. Tive a enorme oportunidade de ser orientado por um professor (Professor, não maître de conf) mais renomado em IT na França: Gérard Battail. Fiquei por mais de 30 anos concentrado nesta área de atuação, particularmente IT, com incursão em Processamento de Sinais, por influência do meu maior colaborador: Ricardo M. Campello. Fim de carreira, fui afastado para área lateral: estatística, onde fui bem acolhido. No meu caso, não há as desejáveis de histórias de sucesso (e talvez inspiradoras), partindo de pais analfabetos, passando fome, sem recurso para livros ou mesmo passagens. Tive recurso para adquirir todos os livros do curso de graduação e carro próprio para ir à universidade. Trata-se pois da vida mais para um "Maxwell" do que para um "Faraday" (para aqueles que curtem biografias de cientistas).


    2. E a Matemática, o que ela representa para o senhor? Pode citar uma teoria, teorema ou algo mais específico na Matemática que lhe fascina?

    A matemática é a base de toda a ciência e a linguagem universal. É a coisa mais bela criada! De teoria criadas, nada como a teoria da evolução e seleção natural. Ligado à matemática discreta, Galois e Abel são destaque. Na minha avaliação, não deixo de fora as múltiplas contribuições de René Descartes: acho que não são valorizadas à medida do que valem. Admiro também conceitos de entropia e ordem (Ludwig Boltzmann e Josiah Gibbs), e a teoria da informação de Claude E. Shannon (informação é um conceito tão relevante quanto a vida). Entre os físicos, registro minha admiração por Niels Bohr e Oliver Heaviside. Agrada-me e inspiram-me polímatas e gênios tais como J. Von Neumman e Henri Poincaré. Mais recentemente, tenho experimentado um fascínio particular pelos trabalhos magníficos de Georg Cantor, cuja elegância e criatividade me surpreendem, e pelas apresentações didáticas e inteligentes de Etienne Ghys (assisti praticamente todas!). De teoremas, há alguns cujas provas me fazem salivar... O teorema central do limite de George Pólya é um deles. O 2º teorema de Shannon (capacidade do aditivo canal gaussiano), demonstração extraída do clássico livro Wozencraft-Jacobs, causou-me grande impacto. E, hors concours: O Lema de Borel-Cantelli!


    3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

    O pior que pode/poderia acontecer é manter o sistema de telecomunicações como público: apenas ineficiência e atraso tecnológico - uma receita para desastre. As privatizações, mesmo que aparentemente conduzidas sob negociatas, foram úteis. E devem continuar, abrindo mais o mercado para a iniciativa privada (é preciso gerar concorrência). As mudanças são decorrentes de dos avanços da tecnologia: as comunicações digitais, os equipamentos se transformaram em computadores digitais, e principalmente o uso de redes WAN, LAN, PAN, MAN ou IoT. A capacidade de interligação proporcionada pela rede IP é avassaladora e inevitável. Hoje não existe mais a área telecom: é uma obrigatória simbiose com redes de computadores (em maior ou menor porte).


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    Tive meu primeiro trabalho na SBrT aceito em 1990, enquanto concluía meu doutorado. Desde então, contribui em ITS 1990 Rio de Janeiro; SBrT 1993 Natal; SBrT 1995 Águas de Lindóia; SBrT 1996 Curitiba; SBrT 1997 Recife; ITS 1998 São Paulo; SBrT 1999 Vila Velha; SBrT 2000 Gramado; SBrT 2001 Fortaleza; ITS 2002; SBrT 2003 Rio de Janeiro; SBrT 2004 Belém; SBrT 2005 Campinas; ITS 2006 Fortaleza; SBrT 2007 Recife; SBrT, 2008 Rio de Janeiro; SBrT 2009 Blumenau; ITS 2010 Manaus; SBrT 2011 Curitiba; SBrT 2013 Fortaleza; SBrT 2015 Juiz de Fora; SBrT 2018 Campina Grande; SBrT 2019 Petrópolis. A registrar, quase que invariavelmente dividi a mesa nos jantares com a equipe EE de Campina Grande, invariavelmente bem acolhido. Outros fatos a destacar foram longas e frequentes conversas, em repetidos eventos, com parceiros como Roger Hopfel, Paul Jean Jeszensky e Walter Godoy Jr (in memoriam). Em 2007, no XXV SBrT, muito envolvimento e trabalho, como co-coordenador técnico e presidente da comissão de iniciação científica. A promoção para sócio sênior e escolha como homenageado nos 35 anos da SBrT em 2018 no SBrT de Campina grande foi também ocasião marcante. Alguns fatos pitorescos de boa recordação incluíram uma apresentação plenária de Reginaldo Palazzo, que após o final do tempo, só havia introduzido parte da notação para abordar o problema (e me gerou a expressão acadêmica: tão cabeludo e intricado quanto um artigo de Palazzo :-)) ou uma apresentação irreverente e maluca de Abraão Alcaim. As tais apresentações-relâmpago, introduzidas por Rafael Dueire no ITS 2010 foram um exercício interessante. Sem contar com as danças amazonenses de certos participantes...


    5. Quais suas referências profissionais?

    Certamente os irmãos Campello de Souza (Fernando e Ricardo). Gérard Battail mostrou-me ética, valores acadêmicos e profissionalismo equilibrado. Sólon de Medeiros Filho foi um professor e profissional motivador. Richard W. Hamming com suas aulas, citações, colocações, deve ser inspiração para qualquer engenheiro. Em Telecomunicações, certamente Edwin Howard Armstrong e Maurice Deloraine pelas suas múltiplas e criativas contribuições. Fora da elétrica, localmente, Washington Amorim Jr é uma das minhas referências.


    6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

    Ah, poucos. Nenhum? Talvez experimentar bons vinhos... Um pouco de poesia (da forma mais despretensiosa possível). Latim. Traduções livres para latim (estilo: solemne est vexillum; ou solemne ex "Aires universitas ad pernambucum"). Alguma fonte interessante para compartilhar: o livro R. Bourgeron, 1300 Esquemas Circuitos Eletrônicos, Hemus; Edição: 4ª (1 de janeiro de 2002), ISBN 978-8528901160O livro Hamming, Richard W. (1962). Numerical Methods for Scientists and Engineers. New York: McGraw-Hill.; second edition 1973 também é de enorme valia para engenheiros. Sites? Recomendo uso constante do Wolfram alpha: que contribuição!


    7. Na sua opinião, como formar um bom Engenheiro?

    Aqui o assunto é mais ensino. A chave do processo é a motivação. O domínio técnico é parte fundamental, mas em pouco auxilia a formar "bons" engenheiros. Uma das boas técnicas é propor desafios, questões a resolver que aguçam a vontade de solucionar problemas (e ganhar reconhecimento). A exibição de bons exemplos de técnicas inteligentes, de causar espanto e beleza, se conseguir contaminar os estudantes com seu entusiasmo pessoal. Vale tentar esclarecer que há posturas que devem ser trabalhadas diariamente, como se polindo um diamante valioso: criticismo, curiosidade, pragmatismo e desejo por aprender. Eu normalmente explico que é necessário um equilíbrio de andar sobre o fio da navalha. Se você é criticado por estar muito teórico: alô, está se afastando, volte à Terra. Mas quando for criticado por estar excessivamente prático: alô, você não está fazendo engenharia. Há bons candidatos a engenheiro, excessivamente teóricos. Outros, excessivamente práticos. Formar um bom engenheiro exige "dosar" entre teoria e prática, entre rigor e aproximação. Outro ponto que procuro mostrar é a diferença de raciocínio e de valor entre matemático e engenheiro. Para o primeiro, as hipóteses, e principalmente o rigor da demonstração é o mais importante. Para o segundo, menor atenção à prova (engineers avoid becoming too involved with mathematical rigor, which all too often tends to become rigor mortis, R. Hamming): como aplicar o enunciado no "mundo real"? O que se pode fazer com isso? Eu aprecio muito a colocação de Shannon em sua entrevista clássica a Anthony Liversidge no Omni.

    I keep asking myself: How would you do this? Is it possible to make a machine to do that? My mind wanders around, and I conceive of different things day and night. Like a science-fiction writer, I'm thinking, What if it were like this? Or, Is there an interesting problem of this type?

    Um colega meu, não sei se você o conhece, teve a iniciativa de traduzir uma alocução de Richard Hamming, intitulada então "Você e Sua Pesquisa", DOI: 10.13140/RG.2.1.2670.2244, Textos ricos como este podem ser motivadores para engenheiros em formação...

    Obs.: Aqui, o Prof. Hélio Magalhães se refere a traduação feita pelo entrevistador, que está disponível aqui.


    8. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

    As coisas mudaram muito nos anos derradeiros... Já tenho dificuldade em sugerir caminhos nestes "novos" tempos. O conselho hoje que me parece fundamental é aprender, aplicar e investir em técnicas de inteligência artificial, qualquer que seja a sua especialização. Afinal vale a citação de (Kelvin Warwick, UK cybernetics Professor at the University of Reading, England): É difícil pensar em qualquer área da inteligência humana na qual, dentro de pouco tempo, uma máquina não venha a superar nosso desempenho.

    Tempos idos, tive incluída uma citação: "If you know that a PhD is something that you want to pursue, then get it out of the way while you are still in student mode. If you go into industry and get used to making 'good money', it will be harder to return to student life afterwards." no livro Words of Wisdom, onde há alguns "conselhos" interessantes para compartilhar. Em uma das alocuções proferidas para uma das 49 turmas de formandos em engenharia em que fui professor homenageado, por dever de ofício, ousei fazer algumas recomendações (eBookfree: Alocuções Panegíricas aos Formandos em Engenharia do Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE, 2015, DOI:10.13140/RG.2.1.4044.2003). Compartilho aqui, em resumo, apenas duas delas: (i) insistir, persistir, perseverar; (ii) é preciso amar o que você faz.


    9. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

    Quem genuinamente ama as ciências, admira as realizações da engenharia, nunca terá dúvidas - como eu - que fez a escolha certa e a melhor escolha. A beleza da engenharia é uma recompensa inestimável. A minha mensagem é repetir minha constatação pessoal: vale a pena ser engenheiro!


    Bio: Possui graduação em Engenharia de Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1966), mestrado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1968) e doutorado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1971). Atualmente é professor titular aposentado da Fundação Universidade Federal do ABC e da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: redes óticas; comunicações óticas; alocação de rota, espectro e formato de modulação em redes óticas elásticas; gerenciamento do espectro ótico em redes de fibras. Foi o primeiro Pró-Reitor de Pesquisa da Unicamp nos anos 1980, e da UFABC desde a sua fundação até 2009. Foi Reitor da UFABC de 2010 a 2014, quando foi aposentado compulsoriamente ao completar 70 anos de idade. Atualmente, coordena um projeto temático da Fapesp sobre novas estratégias para enfrentar a ameaça de exaustão da capacidade, no âmbito de um programa voltado para pesquisas associadas à Internet do futuro; e colabora com programas de pós-graduação na Unicamp e na UFABC.



    1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

    Entendo que a primeira escolha que resultou na minha formação profissional ocorreu na passagem do antigo curso ginasial (correspondente às atuais quinta à oitava séries do curso fundamental) para o nível secundário, que na época (1959) era oferecido em duas versões de curso: Científico e Clássico. Escolhi o curso Científico, por sentir mais afinidade com o que hoje é conhecido como STEM (do inglês "Science, Technology, Engineering and Mathematics"), embora também me interessasse por temáticas ligadas à História e à Literatura, que por sua vez me motivavam ao aprendizado de línguas estrangeiras, notadamente o inglês e o francês.

    Durante o curso científico, estava determinado a cursar o nível superior logo em seguida na USP, mas minhas preferências oscilavam principalmente entre a Física e a Matemática, com a Engenharia despontando como uma alternativa interessante em termos de prestígio social. Ocorre que em 1961, quando tive que optar, a USP decidiu que todas as sua Unidades, até então dispersas pela cidade de São Paulo onde eu morava, deveriam se mudar para o campus do Butantã. Esta decisão era dramática para mim que morava no bairro do Brás, de onde seria necessário pegar dois ônibus para ir e mais dois para voltar do Butantã todo santo dia se fosse estudar na USP.

    Inicialmente, a Escola Politécnica apresentou alguma resistência à mudança, e eu fiquei torcendo para que ela conseguisse ficar no Bom Retiro, onde eu conseguiria chegar com uma única condução. Mas a Poli logo cedeu à pressão da Reitoria (ao contrário da Faculdade de Direito, que continua até hoje no Largo São Francisco), o que me deixou aflito em busca de alternativas. Neste momento decisivo (em meados de 1961), fui contactado por um colega de classe que era e é até hoje fanático por aviões, que estava organizando um grupo para visitar o ITA, do qual eu nem tinha ouvido falar.

    Inicialmente fiquei meio hesitante pois, como eu disse ao colega, "você gosta de avião mas eu gosto de matemática". Ao que ele me respondeu de pronto: "mas pra fazer avião precisa de muita matemática!". Convencido por este argumento, juntei-me ao grupo e fomos a São José dos Campos para conhecer o ITA. Lá chegando, logo fizemos contacto com um grupo de veteranos que foram muito solícitos. Alguns carregavam na cintura suas réguas de cálculo, que me impressionaram pela facilidade de cálculo com o uso de logaritmos, sobre os quais eu já sabia alguma coisa. Mas fiquei ainda mais impressionado quando eles nos convidaram para conhecer um laboratório de eletrônica, onde um dos veteranos me mostrou alguns geradores de sinais e como esses sinais poderiam ser vistos numa tela de osciloscópio.

    Para coroar o "show" de eletrônica, ele usou dois sinais senoidais sincronizados para gerar na tela algumas figuras de Lissajous que variavam com a defasagem entre as duas ondas. Na ocasião, fiquei fascinado com esta demonstração, pois ela parecia dar vida à matemática que, até então, parecia viver apenas em equações escritas no papel. A partir deste episódio, adotei o ITA como minha primeira opção, e tive a felicidade de conseguir uma das 100 vagas oferecidas aos 2000 candidatos de então.

    No ITA recebi uma boa formação profissional como Engenheiro de Eletrônica, mas não havia ainda espaço para receber a formação de pesquisador que eu almejava. Felizmente, porém, tive a oportunidade de interagir com alguns professores que haviam se doutorado no Exterior, e que me estimularam a seguir este caminho. Durante o quinto ano (1966), estagiei na Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), um órgão do CNPq que mais tarde deu origem ao INPE. Naquela ocasião, o CNPq tinha um convênio com a NASA, pelo qual esta conferia um "international fellowship" a bolsistas do CNPq indicados por este, naturalmente por consulta à CNAE, para fazer pós-graduação em instituições americanas. Para obter esta condição, eu precisaria conseguir admissão numa dessas instituições. Fui então atrás dos formulários em papel pelo correio (não havia Internet!), fiz os testes necessários de inglês e de aptidão (GRE), e logrei admissão na Universidade de Stanford, para onde embarquei em 1967 já como "NASA Fellow", para retornar no final de 1971 com os títulos de M.Sc. e Ph.D..

    Em Stanford recebi uma formação de pesquisador, que foi fundamental para desenvolver o trabalho realizado na Unicamp de 1974 a 2006 e na UFABC de 2006 até 2014, quando fui aposentado compulsoriamente por ter chegado aos 70 anos de idade.


    2. Que transformações tecnológicas o senhor experimentou, e quais delas mais lhe impactou?

    Durante o meu curso de graduação nos anos 60, as comunicações no Brasil eram totalmente analógicas, de maneira que a primeira transformação que me impactou, já nos anos 70, foi a digitalização. Foi a digitalização que pautou a minha pesquisa sobre a transmissão de sinais digitais de voz em cabos metálicos (bifilares e coaxiais) nos anos 70, e posteriormente em fibras óticas a partir dos anos 80.

    Com o surgimento da tecnologia WDM nos anos 90, a a capacidade das fibras deu um salto, pressionando a capacidade de processamento eletrônico nos nós, e induzindo o surgimento de novas arquiteturas de rede com uso de funcionalidades fotônicas. Assim, passei a direcionar minhas pesquisas para as redes óticas, inclusive e especialmente a incorporação da fotônica na sua evolução. Atualmente, estou me debruçando também sobre a aplicação do aprendizado de máquina por reforço no gerenciamento dessas redes.


    3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

    Mudaram as tecnologias e os modelos de negócios, aquelas em sintonia com estes. As mudanças anteriores à privatização (ocorrida nos anos 70 a 80 no mundo desenvolvido, e em 1998 no Brasil) diziam respeito à crescente digitalização das redes de comunicações, visando ao melhor aproveitamento da rede de cabos metálicos instalada nas regiões metropolitanas. Com a privatização, tivemos o aprofundamento da convergência entre voz, dados e video; a predominância do tráfego IP gerado pela Internet, o crescimento desmesurado das comunicações móveis sem fio; a "mineração de banda" levando à plena utilização do espectro ótico nas redes WDM (embora com baixa eficiência que está sendo corrigida hoje com o advento das redes elásticas); e o crescente uso de fotônica nos nós da rede de fibras óticas em associação com novas funcionalidades (como roteamento, "grooming" e outras) em novas arquiteturas destinadas a acompahar a crescente capacidade dos sistemas óticos de transmissão.

    O que aconteceu foi que a universalização dos serviços de telefonia nos países ricos, alcançada nos anos 70, esgotou o álibi do modelo monopolista das Telecomunicações vigente até então desde os anos 1930, ao mesmo tempo em que a digitalização das redes e a disseminação dos computadores "mainframe" no âmbito de grandes corporações gerou uma pressão por parte destas para desmontar o monopólio a fim de facilitar a interconectividade entre essas máquinas. A partir daí a inovação na área de serviços explode, e os desafios tecnológicos mudam de natureza: no lugar da barreira da miniaturização dos sistemas, ou pelo menos junto a ela, surge forte a barreira da complexidade própria das redes multi-serviço que dão suporte à Internet.


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    Participei do Simpósio Brasileiro de Telecomunicações realizado no Rio de Janeiro nas instalações da PUC em 1983, durante o qual foi realizada a Assembléia fundadora da SBrT. Na época, eu coordenava um importante convênio da Unicamp com a Telebrás, e tive a oportunidade de incentivar a participação de docentes da Unicamp no Simpósio. A partir daí, passei a participar dos Simpósios da SBrT anualmente, hábito que mantive durante décadas e ainda pretendo retomar.

    Vou destacar um fato do qual fui protagonista. Depois do primeiro Simpósio na PUC-Rio, o segundo foi realizado em Campinas, que também sediava um grupo de pesquisa na Unicamp. O terceiro foi em São José dos Campos. O quarto foi no Rio de novo, mas num hotel da Zona Sul, e o quinto em Campinas de novo, mas agora no CPqD. Para o ano seguinte, no qual eu assumiria um mandato de Presidente da SBrT, havia a necessidade de definir um local, e aí surgiu uma controvérsia: todos concordavam que seria interessante sair do triângulo Rio-Campinas-SJC onde se concentrava a maior parte da pesquisa, mas muitos temiam que seria difícil atrair um bom número de participantes para algum lugar "distante".

    Resolvi que deveríamos assumir esse risco, e consegui interessar o Prof. João Marques de Carvalho em levar o sexto Simpósio para Campina Grande, PB, onde foi realizado com sucesso. O sétimo Simpósio foi para Florianópolis, SC, que repetiu o sucesso de Campina Grande, e a partir daí o Simpósio não parou mais de circular por todo o território nacional, disseminando e encorajando o trabalho de todos.


    5. Quais suas referências profissionais?

    No espaço institucional, minhas referências profissionais são o IEEE e as instituições que ajudei a construir no Brasil: a SBrT, a Unicamp e a UFABC, cada uma com a sua missão, sua vocação e seu papel. Além dessas, tenho como referências a Universidade de Stanford e o ITA, que me ajudaram a continuar crescendo logo após a maioridade, e por extensão ao longo da maturidade e até hoje.

    É claro que, no plano do crescimento pessoal, fui influenciado por muitas pessoas, através do exemplo, da erudição e da afinidade. Poderia citar muitas, mas correndo o risco de omitir outras. Por isso vou homenagear todas em apenas duas pessoas: Aldo Vieira da Rosa, meu orientador em Stanford; e Luiz Bevilacqua, mentor da UFABC.

    De Aldo aprendi muito, não só sobre os processos ionosféricos (foco temático da minha Tese de Doutorado), mas também sobre a dinâmica da pesquisa científica no pós-guerra do século XX, particularmente no período da corrida espacial e sua esteira. Bevilacqua me abriu os olhos para a necessidade de resgatar a interdisciplinaridade da Ciência, perdida que fora nos descaminhos da especialização exacerbada durante o século XX; e me chamou para sonharmos juntos uma Universidade Interdisciplinar no ABC Paulista.


    6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

    Como sou aposentado, meu trabalho é voluntário, tendo assim alguma semelhança com um hobby, apesar de envolver também compromissos acadêmicos que procuro honrar por uma questão de brio profissional. Sempre tentei combinar o profissionalismo com um certo amadorismo no sentido etimológico do termo, ou seja, de quem ama o que faz. Como hobby descompromissado, gosto também de estudar problemas táticos de xadrez, de responder algumas perguntas selecionadas (sobre probabilidades e outros bizus) do site Quora, e de caminhar.

    Em geral, o livro que considero mais interessante é sempre um que eu esteja lendo no momento. No caso, é "O Algoritmo Mestre", de Pedro Domingos. Mas tenho interesse por tudo! Concordo com o que disse G.K. Chesterton: "Não existe assunto desinteressante, o que existe são pessoas desinteressadas".


    7. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área?

    Vou resumir numa frase que parece absurda: "Tenha os pés no chão e a cabeça nas nuvens!". Por "chão" entendo o legado da Ciência de Galileu até hoje: a Física desde Newton até Einstein e Planck, o famigerado Cálculo, a matemática finita, a Teoria dos Jogos, a arte da modelagem de sistemas, etc.. Por "nuvens", as coisas que estão surgindo hoje no horizonte, prenunciando um futuro nebuloso mas desafiador: a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas, os sistemas ciber-físicos etc.. Muitos hoje se iludem achando que vão dominar essas nuvens sem ter os pés bem firmes sobre esse chão. Mas o próprio Newton, ele mesmo um gigante, disse que só conseguiu ver mais longe por estar sobre os ombros de gigantes. O mesmo vale hoje para quem quiser ver mais longe ainda.


    8. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

    Vivemos um momento de grandes incertezas, dentre as quais o coronavirus é apenas mais uma, sobre a qual muitos cientistas e ativistas sociais, como o Bill Gates, já haviam nos advertido. Incertezas são sempre desconfortáveis, por isso acabam levando a (re)definições nas arenas da política e dos negócios. No regime democrático em que todos queremos viver, as definições devem levar em conta as opiniões de todos, bem como a realidade dos fatos que balizam a nossa existência.

    Cabe aos cientistas estabelecer esses fatos com base no método científico e levá-los ao conhecimento de todos, pois como disse o senador P.D. Moyniham (NY, USA): "Todos têm direito à sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos". Daí a importância de fortalecer o ensino da Ciência nas escolas e da divulgação da Ciência através dos meios de comunicação e de museus, para que todos possam compreendê-la não apenas através dos seus frutos, mas especialmente através das suas raízes cognitivas, como sempre fizeram as religiões e ideologias.