SBrT Entrevista

Prof. Edmar Gurjão
Prof. Edmar Gurjão

É com alegria que a Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT) anuncia uma série de entrevistas, conduzidas pelo Prof. Edmar Gurjão, feitas com seus sócios eméritos e seniores, isto é, sócios de seu quadro que possuíram destacada atuação na divulgação e avanço na área de telecomunicações e da própria SBrT. Além de ser uma forma de agradecimento ao trabalho efetuado por essas pessoas, objetivamos registrar histórias, algumas de suas opiniões e conselhos.

Dando prosseguimento às entrevistas, temos o prazer de ter como novo entrevistado o Prof. Hélio Magalhães de Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Prof. Hélio, como é mais conhecido, tem atuação destacada em diversas áreas, é membro Sênior da SBrT, tem participado continuamente dos eventos da Sociedade e contribuído sobremaneira para a formação de engenheiros, nos eventos e para a nossa sociedade científica.

Antes de passarmos à entrevista, gostaríamos de agradecer ao Prof. Hélio pela presteza em responder as nossas perguntas.

Entrevista com Prof. Hélio Magalhães

Bio: Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1980), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1983) e doutorado na École Nationale Supérieure des Télécommunications (1992). Professor adjunto de Estatística na Universidade Federal de Pernambuco desde 2015. Paraninfo de dezesseis turmas de formandos em Engenharia Elétrica-Eletrônica/Engenharia da Computação e professor homenageado eleito por quarenta e nove turmas de formandos da UFPE, Recife. Ex-coordenador dos cursos de Estatística da área II - 9 turmas, cerca de 500 alunos de diversas engenharias (2016-2018), ex-coordenador da pós-graduação em Engenharia Elétrica (1992-1996). Sócio Sênior da Soc. Bras. de Telecomunicações SBrT 2019. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica e modelos/sistemas probabilísticos, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: análise e processamento de sinais, engenharia de áudio, análise de multirresolução, algoritmos rápidos, transformadas de wavelets, corpos finitos, teoria da informação aplicada, transformadas de corpo finito, análise de sinais genômicos, modulação e análise de sinais, codificação de canal, modulação codificada, retículados, Autor do livro "Análise de Sinais para Engenheiros: Uma Abordagem via Wavelets", Brasport Livros e Multimídia Ltda, 1ª edição - 2007, "Análise de Fourier e Wavelets", Editora universitária UFPE. E-book 2012: "Engenharia de Telecomunicações", "Collectio Poemata in Latinum", 2011-2017 (vol I 51p., vol II 57p. vol. III 51p., vol IV, 59p., vol. V, 65p. vol VI, 66p., vol. VII, 84p., vol. VIII, 70p., vol. IX, 59p.). Homenageado da Sociedade Brasileira de Telecomunicações em 2018, nos 35 anos da criação. Orientou 25 trabalhos de Iniciação Científica, 13 dissertações de Mestrado (+4 co-orientações) e 3 teses de doutorado.



1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

Minha formação foi iniciada antes dos cursos formais. Sou de uma família de professores (pai e mãe), com um aguçado interesse científico no lar. Li os 32 volumes da coleção de Júlio Verne, Life, o mundo e nós, enciclopedia Labor, tesouro da juventude, Victor Hugo e tanta coisa interessante. Meu pai graduou-se em Química industrial aos 21 anos, na Universidade de Pernambuco, no ano 1952. Minha tia, farmacêutica na escola de medicina em 1947. Época em que poucos tinham acesso a cursos superiores. Já descobri, ainda criança, que não queria biologia/medicina, artes, direito: sempre me sai melhor em exatas. Minha opção por engenharia elétrica se deu por dois motivos: o exemplo do meu pai que abandonou a formação superior em Química pelo fascínio nele imprimido pela "nova" eletrônica. Adquiriu o cinema Rio Branco (hoje o mais antigo cinema em funcionamento na América Latina) e montou uma oficina de Eletrônica. Tornou-se professor de Física e Matemática superior na Faculdade de Formação de Professores em Arcoverde. Em segundo, tratava-se do curso de maior média, o mais reputado por quem almeja uma formação científica sólida (desejo por excelência). Na oficina, representante autorizado das marcas mais relevantes (Philco, Motorola, Philips, Nordsom, ABC a voz de ouro etc.), muito jovem, trabalhei auxiliando meu pai em reparo de equipamentos, uma motivação para a minha escolha. Minha formação de graduação foi na Universidade Federal de Pernambuco, em Engenharia Elétrica em 1980, aos 21 anos (inexistia um curso de engenharia eletrônica, em vias de criação na época). Eu sempre almejei trabalhar com ciências. O que me conduziu para a área de Telecomunicações? Na época, parcos doutores e poucos pesquisadores. Na UFPE dos anos 70, a melhor opção de orientação foi Dr Valdemar Rocha Jr (ligado á pós-graduação, orientando IC). Minha escolha não foi por achar a área a mais interessante: eu preferia máquinas elétricas. Tive opção de após graduado, conseguir contrato com a Chesf e com a Philips (o diretor conhecia minha família: cheguei a ter entrevista na qual me foi oferecida vaga, e possibilidade de ir à Eindhoven). Perguntei aos meus pais se eles me "bancariam" para ingressar no mestrado na UFPE, sem bolsa. Eles não hesitaram e me apoiaram de olhos fechados. Ingressando no magistério superior em 1983 (aos 24 anos), passei algum tempo programando doutoramento. Casei-me. Minha esposa desejava fazer doutorado no exterior e me fez a proposta: o primeiro que conseguir aceitação e bolsa, o outro segue. Assim foi a minha "escolha" para a França. Meus contatos eram UK. Mas ela conseguiu rápido uma bolsa COFECUB em Paris, centro em que qualquer área de conhecimento possui boas opções. Fui conduzido à ENST, uma grand école. Tive a enorme oportunidade de ser orientado por um professor (Professor, não maître de conf) mais renomado em IT na França: Gérard Battail. Fiquei por mais de 30 anos concentrado nesta área de atuação, particularmente IT, com incursão em Processamento de Sinais, por influência do meu maior colaborador: Ricardo M. Campello. Fim de carreira, fui afastado para área lateral: estatística, onde fui bem acolhido. No meu caso, não há as desejáveis de histórias de sucesso (e talvez inspiradoras), partindo de pais analfabetos, passando fome, sem recurso para livros ou mesmo passagens. Tive recurso para adquirir todos os livros do curso de graduação e carro próprio para ir à universidade. Trata-se pois da vida mais para um "Maxwell" do que para um "Faraday" (para aqueles que curtem biografias de cientistas).


2. E a Matemática, o que ela representa para o senhor? Pode citar uma teoria, teorema ou algo mais específico na Matemática que lhe fascina?

A matemática é a base de toda a ciência e a linguagem universal. É a coisa mais bela criada! De teoria criadas, nada como a teoria da evolução e seleção natural. Ligado à matemática discreta, Galois e Abel são destaque. Na minha avaliação, não deixo de fora as múltiplas contribuições de René Descartes: acho que não são valorizadas à medida do que valem. Admiro também conceitos de entropia e ordem (Ludwig Boltzmann e Josiah Gibbs), e a teoria da informação de Claude E. Shannon (informação é um conceito tão relevante quanto a vida). Entre os físicos, registro minha admiração por Niels Bohr e Oliver Heaviside. Agrada-me e inspiram-me polímatas e gênios tais como J. Von Neumman e Henri Poincaré. Mais recentemente, tenho experimentado um fascínio particular pelos trabalhos magníficos de Georg Cantor, cuja elegância e criatividade me surpreendem, e pelas apresentações didáticas e inteligentes de Etienne Ghys (assisti praticamente todas!). De teoremas, há alguns cujas provas me fazem salivar... O teorema central do limite de George Pólya é um deles. O 2º teorema de Shannon (capacidade do aditivo canal gaussiano), demonstração extraída do clássico livro Wozencraft-Jacobs, causou-me grande impacto. E, hors concours: O Lema de Borel-Cantelli!


3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

O pior que pode/poderia acontecer é manter o sistema de telecomunicações como público: apenas ineficiência e atraso tecnológico - uma receita para desastre. As privatizações, mesmo que aparentemente conduzidas sob negociatas, foram úteis. E devem continuar, abrindo mais o mercado para a iniciativa privada (é preciso gerar concorrência). As mudanças são decorrentes de dos avanços da tecnologia: as comunicações digitais, os equipamentos se transformaram em computadores digitais, e principalmente o uso de redes WAN, LAN, PAN, MAN ou IoT. A capacidade de interligação proporcionada pela rede IP é avassaladora e inevitável. Hoje não existe mais a área telecom: é uma obrigatória simbiose com redes de computadores (em maior ou menor porte).


4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

Tive meu primeiro trabalho na SBrT aceito em 1990, enquanto concluía meu doutorado. Desde então, contribui em ITS 1990 Rio de Janeiro; SBrT 1993 Natal; SBrT 1995 Águas de Lindóia; SBrT 1996 Curitiba; SBrT 1997 Recife; ITS 1998 São Paulo; SBrT 1999 Vila Velha; SBrT 2000 Gramado; SBrT 2001 Fortaleza; ITS 2002; SBrT 2003 Rio de Janeiro; SBrT 2004 Belém; SBrT 2005 Campinas; ITS 2006 Fortaleza; SBrT 2007 Recife; SBrT, 2008 Rio de Janeiro; SBrT 2009 Blumenau; ITS 2010 Manaus; SBrT 2011 Curitiba; SBrT 2013 Fortaleza; SBrT 2015 Juiz de Fora; SBrT 2018 Campina Grande; SBrT 2019 Petrópolis. A registrar, quase que invariavelmente dividi a mesa nos jantares com a equipe EE de Campina Grande, invariavelmente bem acolhido. Outros fatos a destacar foram longas e frequentes conversas, em repetidos eventos, com parceiros como Roger Hopfel, Paul Jean Jeszensky e Walter Godoy Jr (in memoriam). Em 2007, no XXV SBrT, muito envolvimento e trabalho, como co-coordenador técnico e presidente da comissão de iniciação científica. A promoção para sócio sênior e escolha como homenageado nos 35 anos da SBrT em 2018 no SBrT de Campina grande foi também ocasião marcante. Alguns fatos pitorescos de boa recordação incluíram uma apresentação plenária de Reginaldo Palazzo, que após o final do tempo, só havia introduzido parte da notação para abordar o problema (e me gerou a expressão acadêmica: tão cabeludo e intricado quanto um artigo de Palazzo :-)) ou uma apresentação irreverente e maluca de Abraão Alcaim. As tais apresentações-relâmpago, introduzidas por Rafael Dueire no ITS 2010 foram um exercício interessante. Sem contar com as danças amazonenses de certos participantes...


5. Quais suas referências profissionais?

Certamente os irmãos Campello de Souza (Fernando e Ricardo). Gérard Battail mostrou-me ética, valores acadêmicos e profissionalismo equilibrado. Sólon de Medeiros Filho foi um professor e profissional motivador. Richard W. Hamming com suas aulas, citações, colocações, deve ser inspiração para qualquer engenheiro. Em Telecomunicações, certamente Edwin Howard Armstrong e Maurice Deloraine pelas suas múltiplas e criativas contribuições. Fora da elétrica, localmente, Washington Amorim Jr é uma das minhas referências.


6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

Ah, poucos. Nenhum? Talvez experimentar bons vinhos... Um pouco de poesia (da forma mais despretensiosa possível). Latim. Traduções livres para latim (estilo: solemne est vexillum; ou solemne ex "Aires universitas ad pernambucum"). Alguma fonte interessante para compartilhar: o livro R. Bourgeron, 1300 Esquemas Circuitos Eletrônicos, Hemus; Edição: 4ª (1 de janeiro de 2002), ISBN 978-8528901160O livro Hamming, Richard W. (1962). Numerical Methods for Scientists and Engineers. New York: McGraw-Hill.; second edition 1973 também é de enorme valia para engenheiros. Sites? Recomendo uso constante do Wolfram alpha: que contribuição!


7. Na sua opinião, como formar um bom Engenheiro?

Aqui o assunto é mais ensino. A chave do processo é a motivação. O domínio técnico é parte fundamental, mas em pouco auxilia a formar "bons" engenheiros. Uma das boas técnicas é propor desafios, questões a resolver que aguçam a vontade de solucionar problemas (e ganhar reconhecimento). A exibição de bons exemplos de técnicas inteligentes, de causar espanto e beleza, se conseguir contaminar os estudantes com seu entusiasmo pessoal. Vale tentar esclarecer que há posturas que devem ser trabalhadas diariamente, como se polindo um diamante valioso: criticismo, curiosidade, pragmatismo e desejo por aprender. Eu normalmente explico que é necessário um equilíbrio de andar sobre o fio da navalha. Se você é criticado por estar muito teórico: alô, está se afastando, volte à Terra. Mas quando for criticado por estar excessivamente prático: alô, você não está fazendo engenharia. Há bons candidatos a engenheiro, excessivamente teóricos. Outros, excessivamente práticos. Formar um bom engenheiro exige "dosar" entre teoria e prática, entre rigor e aproximação. Outro ponto que procuro mostrar é a diferença de raciocínio e de valor entre matemático e engenheiro. Para o primeiro, as hipóteses, e principalmente o rigor da demonstração é o mais importante. Para o segundo, menor atenção à prova (engineers avoid becoming too involved with mathematical rigor, which all too often tends to become rigor mortis, R. Hamming): como aplicar o enunciado no "mundo real"? O que se pode fazer com isso? Eu aprecio muito a colocação de Shannon em sua entrevista clássica a Anthony Liversidge no Omni.

I keep asking myself: How would you do this? Is it possible to make a machine to do that? My mind wanders around, and I conceive of different things day and night. Like a science-fiction writer, I'm thinking, What if it were like this? Or, Is there an interesting problem of this type?

Um colega meu, não sei se você o conhece, teve a iniciativa de traduzir uma alocução de Richard Hamming, intitulada então "Você e Sua Pesquisa", DOI: 10.13140/RG.2.1.2670.2244, Textos ricos como este podem ser motivadores para engenheiros em formação...

Obs.: Aqui, o Prof. Hélio Magalhães se refere a traduação feita pelo entrevistador, que está disponível aqui.


8. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

As coisas mudaram muito nos anos derradeiros... Já tenho dificuldade em sugerir caminhos nestes "novos" tempos. O conselho hoje que me parece fundamental é aprender, aplicar e investir em técnicas de inteligência artificial, qualquer que seja a sua especialização. Afinal vale a citação de (Kelvin Warwick, UK cybernetics Professor at the University of Reading, England): É difícil pensar em qualquer área da inteligência humana na qual, dentro de pouco tempo, uma máquina não venha a superar nosso desempenho.

Tempos idos, tive incluída uma citação: "If you know that a PhD is something that you want to pursue, then get it out of the way while you are still in student mode. If you go into industry and get used to making 'good money', it will be harder to return to student life afterwards." no livro Words of Wisdom, onde há alguns "conselhos" interessantes para compartilhar. Em uma das alocuções proferidas para uma das 49 turmas de formandos em engenharia em que fui professor homenageado, por dever de ofício, ousei fazer algumas recomendações (eBookfree: Alocuções Panegíricas aos Formandos em Engenharia do Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE, 2015, DOI:10.13140/RG.2.1.4044.2003). Compartilho aqui, em resumo, apenas duas delas: (i) insistir, persistir, perseverar; (ii) é preciso amar o que você faz.


9. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

Quem genuinamente ama as ciências, admira as realizações da engenharia, nunca terá dúvidas - como eu - que fez a escolha certa e a melhor escolha. A beleza da engenharia é uma recompensa inestimável. A minha mensagem é repetir minha constatação pessoal: vale a pena ser engenheiro!


Confira as entrevistas anteriores

  • Bio: Possui graduação em Engenharia de Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1966), mestrado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1968) e doutorado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1971). Atualmente é professor titular aposentado da Fundação Universidade Federal do ABC e da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: redes óticas; comunicações óticas; alocação de rota, espectro e formato de modulação em redes óticas elásticas; gerenciamento do espectro ótico em redes de fibras. Foi o primeiro Pró-Reitor de Pesquisa da Unicamp nos anos 1980, e da UFABC desde a sua fundação até 2009. Foi Reitor da UFABC de 2010 a 2014, quando foi aposentado compulsoriamente ao completar 70 anos de idade. Atualmente, coordena um projeto temático da Fapesp sobre novas estratégias para enfrentar a ameaça de exaustão da capacidade, no âmbito de um programa voltado para pesquisas associadas à Internet do futuro; e colabora com programas de pós-graduação na Unicamp e na UFABC.



    1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

    Entendo que a primeira escolha que resultou na minha formação profissional ocorreu na passagem do antigo curso ginasial (correspondente às atuais quinta à oitava séries do curso fundamental) para o nível secundário, que na época (1959) era oferecido em duas versões de curso: Científico e Clássico. Escolhi o curso Científico, por sentir mais afinidade com o que hoje é conhecido como STEM (do inglês "Science, Technology, Engineering and Mathematics"), embora também me interessasse por temáticas ligadas à História e à Literatura, que por sua vez me motivavam ao aprendizado de línguas estrangeiras, notadamente o inglês e o francês.

    Durante o curso científico, estava determinado a cursar o nível superior logo em seguida na USP, mas minhas preferências oscilavam principalmente entre a Física e a Matemática, com a Engenharia despontando como uma alternativa interessante em termos de prestígio social. Ocorre que em 1961, quando tive que optar, a USP decidiu que todas as sua Unidades, até então dispersas pela cidade de São Paulo onde eu morava, deveriam se mudar para o campus do Butantã. Esta decisão era dramática para mim que morava no bairro do Brás, de onde seria necessário pegar dois ônibus para ir e mais dois para voltar do Butantã todo santo dia se fosse estudar na USP.

    Inicialmente, a Escola Politécnica apresentou alguma resistência à mudança, e eu fiquei torcendo para que ela conseguisse ficar no Bom Retiro, onde eu conseguiria chegar com uma única condução. Mas a Poli logo cedeu à pressão da Reitoria (ao contrário da Faculdade de Direito, que continua até hoje no Largo São Francisco), o que me deixou aflito em busca de alternativas. Neste momento decisivo (em meados de 1961), fui contactado por um colega de classe que era e é até hoje fanático por aviões, que estava organizando um grupo para visitar o ITA, do qual eu nem tinha ouvido falar.

    Inicialmente fiquei meio hesitante pois, como eu disse ao colega, "você gosta de avião mas eu gosto de matemática". Ao que ele me respondeu de pronto: "mas pra fazer avião precisa de muita matemática!". Convencido por este argumento, juntei-me ao grupo e fomos a São José dos Campos para conhecer o ITA. Lá chegando, logo fizemos contacto com um grupo de veteranos que foram muito solícitos. Alguns carregavam na cintura suas réguas de cálculo, que me impressionaram pela facilidade de cálculo com o uso de logaritmos, sobre os quais eu já sabia alguma coisa. Mas fiquei ainda mais impressionado quando eles nos convidaram para conhecer um laboratório de eletrônica, onde um dos veteranos me mostrou alguns geradores de sinais e como esses sinais poderiam ser vistos numa tela de osciloscópio.

    Para coroar o "show" de eletrônica, ele usou dois sinais senoidais sincronizados para gerar na tela algumas figuras de Lissajous que variavam com a defasagem entre as duas ondas. Na ocasião, fiquei fascinado com esta demonstração, pois ela parecia dar vida à matemática que, até então, parecia viver apenas em equações escritas no papel. A partir deste episódio, adotei o ITA como minha primeira opção, e tive a felicidade de conseguir uma das 100 vagas oferecidas aos 2000 candidatos de então.

    No ITA recebi uma boa formação profissional como Engenheiro de Eletrônica, mas não havia ainda espaço para receber a formação de pesquisador que eu almejava. Felizmente, porém, tive a oportunidade de interagir com alguns professores que haviam se doutorado no Exterior, e que me estimularam a seguir este caminho. Durante o quinto ano (1966), estagiei na Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), um órgão do CNPq que mais tarde deu origem ao INPE. Naquela ocasião, o CNPq tinha um convênio com a NASA, pelo qual esta conferia um "international fellowship" a bolsistas do CNPq indicados por este, naturalmente por consulta à CNAE, para fazer pós-graduação em instituições americanas. Para obter esta condição, eu precisaria conseguir admissão numa dessas instituições. Fui então atrás dos formulários em papel pelo correio (não havia Internet!), fiz os testes necessários de inglês e de aptidão (GRE), e logrei admissão na Universidade de Stanford, para onde embarquei em 1967 já como "NASA Fellow", para retornar no final de 1971 com os títulos de M.Sc. e Ph.D..

    Em Stanford recebi uma formação de pesquisador, que foi fundamental para desenvolver o trabalho realizado na Unicamp de 1974 a 2006 e na UFABC de 2006 até 2014, quando fui aposentado compulsoriamente por ter chegado aos 70 anos de idade.


    2. Que transformações tecnológicas o senhor experimentou, e quais delas mais lhe impactou?

    Durante o meu curso de graduação nos anos 60, as comunicações no Brasil eram totalmente analógicas, de maneira que a primeira transformação que me impactou, já nos anos 70, foi a digitalização. Foi a digitalização que pautou a minha pesquisa sobre a transmissão de sinais digitais de voz em cabos metálicos (bifilares e coaxiais) nos anos 70, e posteriormente em fibras óticas a partir dos anos 80.

    Com o surgimento da tecnologia WDM nos anos 90, a a capacidade das fibras deu um salto, pressionando a capacidade de processamento eletrônico nos nós, e induzindo o surgimento de novas arquiteturas de rede com uso de funcionalidades fotônicas. Assim, passei a direcionar minhas pesquisas para as redes óticas, inclusive e especialmente a incorporação da fotônica na sua evolução. Atualmente, estou me debruçando também sobre a aplicação do aprendizado de máquina por reforço no gerenciamento dessas redes.


    3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

    Mudaram as tecnologias e os modelos de negócios, aquelas em sintonia com estes. As mudanças anteriores à privatização (ocorrida nos anos 70 a 80 no mundo desenvolvido, e em 1998 no Brasil) diziam respeito à crescente digitalização das redes de comunicações, visando ao melhor aproveitamento da rede de cabos metálicos instalada nas regiões metropolitanas. Com a privatização, tivemos o aprofundamento da convergência entre voz, dados e video; a predominância do tráfego IP gerado pela Internet, o crescimento desmesurado das comunicações móveis sem fio; a "mineração de banda" levando à plena utilização do espectro ótico nas redes WDM (embora com baixa eficiência que está sendo corrigida hoje com o advento das redes elásticas); e o crescente uso de fotônica nos nós da rede de fibras óticas em associação com novas funcionalidades (como roteamento, "grooming" e outras) em novas arquiteturas destinadas a acompahar a crescente capacidade dos sistemas óticos de transmissão.

    O que aconteceu foi que a universalização dos serviços de telefonia nos países ricos, alcançada nos anos 70, esgotou o álibi do modelo monopolista das Telecomunicações vigente até então desde os anos 1930, ao mesmo tempo em que a digitalização das redes e a disseminação dos computadores "mainframe" no âmbito de grandes corporações gerou uma pressão por parte destas para desmontar o monopólio a fim de facilitar a interconectividade entre essas máquinas. A partir daí a inovação na área de serviços explode, e os desafios tecnológicos mudam de natureza: no lugar da barreira da miniaturização dos sistemas, ou pelo menos junto a ela, surge forte a barreira da complexidade própria das redes multi-serviço que dão suporte à Internet.


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    Participei do Simpósio Brasileiro de Telecomunicações realizado no Rio de Janeiro nas instalações da PUC em 1983, durante o qual foi realizada a Assembléia fundadora da SBrT. Na época, eu coordenava um importante convênio da Unicamp com a Telebrás, e tive a oportunidade de incentivar a participação de docentes da Unicamp no Simpósio. A partir daí, passei a participar dos Simpósios da SBrT anualmente, hábito que mantive durante décadas e ainda pretendo retomar.

    Vou destacar um fato do qual fui protagonista. Depois do primeiro Simpósio na PUC-Rio, o segundo foi realizado em Campinas, que também sediava um grupo de pesquisa na Unicamp. O terceiro foi em São José dos Campos. O quarto foi no Rio de novo, mas num hotel da Zona Sul, e o quinto em Campinas de novo, mas agora no CPqD. Para o ano seguinte, no qual eu assumiria um mandato de Presidente da SBrT, havia a necessidade de definir um local, e aí surgiu uma controvérsia: todos concordavam que seria interessante sair do triângulo Rio-Campinas-SJC onde se concentrava a maior parte da pesquisa, mas muitos temiam que seria difícil atrair um bom número de participantes para algum lugar "distante".

    Resolvi que deveríamos assumir esse risco, e consegui interessar o Prof. João Marques de Carvalho em levar o sexto Simpósio para Campina Grande, PB, onde foi realizado com sucesso. O sétimo Simpósio foi para Florianópolis, SC, que repetiu o sucesso de Campina Grande, e a partir daí o Simpósio não parou mais de circular por todo o território nacional, disseminando e encorajando o trabalho de todos.


    5. Quais suas referências profissionais?

    No espaço institucional, minhas referências profissionais são o IEEE e as instituições que ajudei a construir no Brasil: a SBrT, a Unicamp e a UFABC, cada uma com a sua missão, sua vocação e seu papel. Além dessas, tenho como referências a Universidade de Stanford e o ITA, que me ajudaram a continuar crescendo logo após a maioridade, e por extensão ao longo da maturidade e até hoje.

    É claro que, no plano do crescimento pessoal, fui influenciado por muitas pessoas, através do exemplo, da erudição e da afinidade. Poderia citar muitas, mas correndo o risco de omitir outras. Por isso vou homenagear todas em apenas duas pessoas: Aldo Vieira da Rosa, meu orientador em Stanford; e Luiz Bevilacqua, mentor da UFABC.

    De Aldo aprendi muito, não só sobre os processos ionosféricos (foco temático da minha Tese de Doutorado), mas também sobre a dinâmica da pesquisa científica no pós-guerra do século XX, particularmente no período da corrida espacial e sua esteira. Bevilacqua me abriu os olhos para a necessidade de resgatar a interdisciplinaridade da Ciência, perdida que fora nos descaminhos da especialização exacerbada durante o século XX; e me chamou para sonharmos juntos uma Universidade Interdisciplinar no ABC Paulista.


    6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

    Como sou aposentado, meu trabalho é voluntário, tendo assim alguma semelhança com um hobby, apesar de envolver também compromissos acadêmicos que procuro honrar por uma questão de brio profissional. Sempre tentei combinar o profissionalismo com um certo amadorismo no sentido etimológico do termo, ou seja, de quem ama o que faz. Como hobby descompromissado, gosto também de estudar problemas táticos de xadrez, de responder algumas perguntas selecionadas (sobre probabilidades e outros bizus) do site Quora, e de caminhar.

    Em geral, o livro que considero mais interessante é sempre um que eu esteja lendo no momento. No caso, é "O Algoritmo Mestre", de Pedro Domingos. Mas tenho interesse por tudo! Concordo com o que disse G.K. Chesterton: "Não existe assunto desinteressante, o que existe são pessoas desinteressadas".


    7. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área?

    Vou resumir numa frase que parece absurda: "Tenha os pés no chão e a cabeça nas nuvens!". Por "chão" entendo o legado da Ciência de Galileu até hoje: a Física desde Newton até Einstein e Planck, o famigerado Cálculo, a matemática finita, a Teoria dos Jogos, a arte da modelagem de sistemas, etc.. Por "nuvens", as coisas que estão surgindo hoje no horizonte, prenunciando um futuro nebuloso mas desafiador: a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas, os sistemas ciber-físicos etc.. Muitos hoje se iludem achando que vão dominar essas nuvens sem ter os pés bem firmes sobre esse chão. Mas o próprio Newton, ele mesmo um gigante, disse que só conseguiu ver mais longe por estar sobre os ombros de gigantes. O mesmo vale hoje para quem quiser ver mais longe ainda.


    8. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

    Vivemos um momento de grandes incertezas, dentre as quais o coronavirus é apenas mais uma, sobre a qual muitos cientistas e ativistas sociais, como o Bill Gates, já haviam nos advertido. Incertezas são sempre desconfortáveis, por isso acabam levando a (re)definições nas arenas da política e dos negócios. No regime democrático em que todos queremos viver, as definições devem levar em conta as opiniões de todos, bem como a realidade dos fatos que balizam a nossa existência.

    Cabe aos cientistas estabelecer esses fatos com base no método científico e levá-los ao conhecimento de todos, pois como disse o senador P.D. Moyniham (NY, USA): "Todos têm direito à sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos". Daí a importância de fortalecer o ensino da Ciência nas escolas e da divulgação da Ciência através dos meios de comunicação e de museus, para que todos possam compreendê-la não apenas através dos seus frutos, mas especialmente através das suas raízes cognitivas, como sempre fizeram as religiões e ideologias.